Flora, Airton e Robertinho
Flora, Airton e Robertinho
Marcio Aurelio Soares
Aconteceu no começo dos anos dois mil. Saí do estúdio onde dava os primeiros passos no estudo da bateria. Um lugar que, por sinal, ainda estou, mesmo após ter adquirido sua versão eletrônica e instalá-la no meio de nossa sala de estar com a natural permissão de minha mulher em troca de seu bem-estar auditivo e da paz doméstica da nação.
Em frente ao estúdio, atrás da igreja do Embaré, em Santos, nascia o que hoje é considerado o Bar do Toninho, o Rei do Bolinho do Bacalhau. Ali de pé no balcão, pedi um pastel e uma cerveja. Foi quando olhei para o lado e o vi. Entre surpreso e encantado, o cumprimentei com um leve aceno de cabeça. A resposta foi um sorriso largo, desses que dispensam apresentação. Estava diante de uma das lendas da percussão e da bateria no mundo.
Voltei a olhá-lo, como quem pergunta sem dizer:
- Você por aqui?
Ele sempre sorrindo, sua marca pessoal:
-Estamos visitando uma cunhada que mora na cidade.
Sem ter o que falar, fiquei atônito por uns instantes, para logo em seguida ele se despedir, com um simples tchau. Lá se foi Robertinho Silva, carismático, um gênio da música. Olhei para o balconista, para os poucos que estavam no bar, como quem diz: – Vocês sabem quem é esse cara? Não, ninguém sabia. E, ao que parecia, pouco se importavam.
Robertinho foi um dos bateristas mais consagrados entre as décadas de 1970 e 1990. Acompanhou Milton Nascimento por trinta anos, gravou com Chick Corea, Egberto Gismonti, Wayne Shorter, Hermeto Paschoal. Hoje, pelas redes sociais, vejo que vive no Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá no Rio de Janeiro, instituição que acolhe artistas. Pelas imagens, parece estar bem. Talvez ajude o fato de ter como vizinho Flora Purim e Airton Moreira, companheiros de vida e de música há seis décadas.
Flora, rítmica e afinada ao extremo, chamou a atenção do mundo ao integrar a cena do jazz fusion consolidado no disco Return to Forever (1970), de Chico Corea. Airton, inventor de sons, gravou com Miles Davis, Herbie Hancock, Joe Zawinul; introduziu instrumentos brasileiros, como o berimbau, a cuíca e o pandeiro, e mudou, de vez, o conceito de percussão no jazz.
Os três já ultrapassaram a casa dos oitenta anos, e seguem se reinventando, criando, produzindo. Muito disso se deve ao trabalho persistente do ator Stepan Nercessian, à frente do Retiro há mais de duas décadas, sustentando a instituição com doações, campanhas e eventos beneficentes.
Assisti a ótimos shows com Robertinho na bateria, em um deles, cheguei a fotografá-lo de cima do palco, na coxia. De Flora e Airton, lembro de um show no Canecão. O que aquele homem fazia com o pandeiro e o que aquela mulher fazia com a voz eram coisas difíceis de esquecer.
Arte viva.
Marcio Aurelio Soares