Cinédia, Atlântida e Vera Cruz: Verdadeiras Usinas de Sonhos!
Cinédia, Atlântida e Vera Cruz: Verdadeiras Usinas de Sonhos!
MarioEfeGomesJr*
Você já ouviu falar da Cinédia? Pois esse era o nome da primeira grande companhia cinematográfica do Brasil. Fundada pelo jornalista e cineasta carioca Ademar Gonzaga, entre as décadas de 1930 e 1940 produziu na “Cidade Maravilhosa” dezenas de filmes dos gêneros drama e comédias musicais, que ficariam conhecidas popularmente como chanchadas.
Vários filmes da Cinédia foram sucessos de crítica e bilheteria, tais como ”Ganga Bruta” (1933), de Humberto Mauro, drama cujo roteiro foi uma parceria entre o próprio diretor e Otávio Gabus Mendes. Curiosidade: Humberto Mauro ainda foi coautor da trilha sonora do filme ao lado do famoso compositor, arranjador e pianista brasileiro Radamés Gnatalli, autor de mais de 300 peças, entre solos para piano, violão, música de câmara, sinfônica e popular!
Outra produção da Cinédia de enorme sucesso foi “O Ébrio” (1946), de Gilda Abreu, com roteiro assinado pela diretora e seu marido, o cantor e compositor Vicente Celestino, que também é protagonista do filme e autor da trilha sonora. Curiosidade: Esse drama tinha no elenco o então jovem ator e comediante Walter D’Ávila, que ficaria famoso interpretando o seu “Baltazar da Rocha”, personagem que tinha o bordão “sábo-lho” e quase sempre encerrava os episódios da “Escolinha do Professor Raimundo” (1990-2001), de Chico Anísio. Dá para perceber como eram versáteis esses artistas pioneiros!
No ano de 1941, também na cidade do Rio de Janeiro, surge a Atlântida Cinematográfica, fundada pelos cineastas José Carlos Burle e Moacyr Fenelon. Manteve-se ativa até 1962 e produziu um total de 66 filmes. Entre os vários sucessos, destaco a chanchada musical “Carnaval no Fogo” (1949), de Watson Macedo, estrelada por Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte (este também responsável pelo roteiro) e Eliana Macedo.
Merecem igualmente destaque as comédias da Atlântida “Nem Sanção, nem Dalila” (1955), de Carlos Manga, estrelado pelo sempre presente Oscarito, tem no elenco Cyll Farney, Fada Santoro e Wilson Grey; e “O Homem do Sputnik” (1959), que repetiu a pareceria entre Carlos Manga e Oscarito, tendo no elenco artistas como Norma Bengel, Neide Aparecida, Jô Soares (estreante, então com apenas 20 anos) e Tutuca. Curiosidade: O comediante Tutuca ficaria famoso pelo humorístico “A Praça é Nossa” (1987-2022), do SBT, interpretando o tímido faxineiro “Clementino”, personagem que sempre encerrava o quadro com o bordão “Xiiiiíí, como é boa essa secretária! Ah, se ela me desse bola...”!
A seguir, faço uma merecida homenagem relembrando outros artistas que fizeram história nas chanchadas da Atlântida, iniciando por Renata Fronzi, a “Helena” da famosa série da TV Record “Família Trapo” (1967-1971). Eva Todor, a “Kiki Blanche”, da telenovela da TV Globo “Locomotivas” (1977). José Lewgoy, famoso pelos inúmeros personagens nas telenovelas da Globo. Augusto César Vannuci, diretor e produtor de programas como ”Chico City” (1973-1980), “Faça Humor, Não Faça Guerra” (1971-1973) e “Os Trapalhões” (1966-1995). Zezé Macedo, a “Dona Bela”, que sempre acusava o “Professor Raimundo” de só pensar “naquilo”. Ivon Curi, o gaúcho “machochô” também da “Escolinha do Professor Raimundo” (1957-1995). Virginia Lane, que recebeu o título de “A Vedete do Brasil”, dado por seu fã Getúlio Vargas pela atuação na peça “Seu Gegê”, uma referência ao então presidente da República. Ankito, que na primeira versão de “Sítio do Pica-pau Amarelo” (1977-1986), da TV Globo, fez os papéis de “Soldadinho de Chumbo” e “Curupira”. E, por fim, Costinha, que na “Escolinha do Professor Raimundo” interpretava “Seu Mazarito” (homenagem a Mazzaropi e Oscarito), que implicava com o microfone posicionado no teto do cenário e sempre balbuciava: “Meau”!
E sobre a Vera Cruz, já ouviu falar? Foi uma companhia paulista fundada, em 1949, pelo empresário italiano Franco Zampari e pelo industrial Francisco Matarazzo Sobrinho, também fundador do Museu de Arte Moderna de São Paulo, mais conhecido por Ciccillo Matarazzo. Os estúdios, com mais de 100.000 m2, ficavam em São Bernardo do Campo. Na década de 1950 se tornou a mais prestigiada companhia cinematográfica do Brasil, inclusive com filmes premiados em festivais internacionais.
Entre eles destaco “Tico-tico no Fubá” (1952), de Adolfo Celi, drama biográfico que conta a história de Zequinha de Abreu, compositor do choro mencionado no título, imortalizado na voz de Carmen Miranda e que é uma das músicas brasileiras mais conhecidas no exterior. O filme foi protagonizado por Anselmo Duarte e Tônia Carreiro (ambos caracterizados na foto). Curiosidade: À época das filmagens, a belíssima Tônia Carreiro era casada com o diretor, o italiano Adolfo Celi, que também era ator e logo ficaria famoso no papel de “Emilio Largo”, o vilão e arqui-inimigo de “James Bond” em “007 Contra a Chantagem Atômica” (1965), de Terence Young, o quarto filme da série protagonizado por Sean Connery.
“Floradas na Serra” (1954), de Luciano Salce, é outra produção da Vera Cruz que merece destaque. Teve como protagonistas Cacilda Becker (que é considerada uma das melhores atrizes da história de nosso teatro, em rara aparição na “telona”) e Jardel Filho (ótimo ator que ficou famoso pelos seus papéis de galã na Globo e morreu em 1983, aos 55 anos, quando gravava os últimos capítulos da telenovela “Sol de Verão”, causando comoção nacional).
Por fim, relembro aquele que considero o mais importante filme produzido pela Vera Cruz: “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte, drama baseado na peça homônima de Dias Gomes e que tem nos papéis principais Leonardo Villar, Glória Menezes, Geraldo Del Rey e Dionísio Azevedo. Ganhou a Palma de Ouro e o Prêmio Especial do Júri no festival de Cannes, na França, sendo ainda indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro!
A liberdade de criação e o suporte técnico que esses três grandes estúdios ofereciam aos seus talentosos artistas permitiram que, em certo momento do século XX, fossem produzidos no Brasil dramas e comédias musicais que faziam entre nós mais sucesso do que os filmes de Hollywood. Portanto, creio que Cinédia, Atlântida e Vera Cruz foram verdadeiras usinas de sonhos, que se iniciavam ao apagar das luzes e nos encantavam até os créditos finais!
* Mário Efegomes Jr. é natural de Santos, advogado, cinéfilo e aficionado por música.
Fontes: Portais Google e Wikipédia.