21 de setembro - Dia da luta nacional das pessoas com deficiências

 




21 de setembro - Dia da luta nacional das pessoas com deficiências

Ao me deparar com a comemoração desse dia, lembrei de uma colega professora, ainda no início de minha carreira docente, lá em Cotia, que sabiamente teceu mais ou menos esse comentário: “se tem dia comemorativo para algo ou alguém, é porque há discriminação!”. Essa colega era negra e já deveria ter passado por “poucas e boas” para ser tão enfática na sua afirmação.
E para começar a escrever sobre o tema, lembrei que por volta de 21 ou 22 costumam mudar os signos do zodíaco e, no caso de setembro, também término do inverno e início da primavera, fui lá pesquisar para verificar isso, e olha o que descubro... a primavera começa amanhã, dia 22 de setembro, exatamente as 10 horas e 31 minutos... 😱... agora entendi para que serve essa carinha, aquele espanto de ter vivido tantos anos sem ter descoberto algo que parecia tão óbvio! Ou não? Sim, não, sei lá!... estou me referindo às 10h31min... você já sabia ou está como eu, espantada(o) dessa descoberta?
Mas o que fiquei sabendo ao fazer essa pesquisa, é que o dia 21 de setembro é o último dia do inverno, deve ser também o do signo de virgem que combina sempre com essas datas, quando o signo muda de acordo com a estação, ou então causa confusão como em 21 de junho, dia de nascimento da minha sobrinha Talita, que nunca sabe se é de gêmeos ou câncer...voltemos ao 21 de setembro, ser o último dia do inverno para comemorar essa luta, será que significa dizer que sempre estarão com um “pé” tentando entrar na primavera sem nunca conseguir? Será que na hora que a luta não precisar mais ser empreendida, esse dia deveria mudar para 22 de setembro?
Eita loucura de cabeça que corre para milhões de direções quando pensa em abordar algum tema, algum assunto! Hoje via um vídeo da filósofa Viviane Mosé em que ela dizia que, enquanto falava, um euzinho ficava lá palpitando, controlando, dizendo... “não se estende”, “o tempo está acabando”, o controlador ficava lá e aquela mente “normal” fica lá obedecendo (ou não) o controlador.
Mas afinal, o que é mesmo que eu pretendia escrever?
Bem, pretendia começar dizendo que, a primeira pessoa (ou as primeiras) que me fizeram pensar nas deficiências, foram o irmão e o sobrinho do meu cunhado Robinson. 
Juninho, irmão de meu cunhado, que se afastou desse mundo no início deste ano depois de uma jornada de 56 anos (da nossa contagem atual), portador de síndrome de Down (essa internet salva a gente para garantir que não passe erros banais), deixa saudades... seu sobrinho, filho da Sid, já permaneceu por aqui poucos meses, também portador da mesma doença nasceu com problemas adicionais bem mais graves, no coração, não lhe dando a chance de conhecer mais profundamente esse “mundinho de meu deus”! Lembro da dificuldade do Juninho em frequentar escolas, na minha experiência, somente na faculdade um colega reclamou calçadas rebaixadas para deficientes não respeitadas pelos carros (acho que já fiz isso 😴 ogra) e também fazer as avaliações com ajuda de um computador, de fora, não me lembro de nenhum outra pessoa com deficiências visíveis. O Juninho frequentava a APAE, que gostava muito, até que seus pais não tiveram mais condições financeiras para bancar esse espaço de convívio, passou ele somente a casa, aos vizinhos, parentes e amigos(a).... daí já podermos perceber que, graça as lutas e as leis, hoje os portadores de deficiências, dessas e outras, já tem garantido seu espaço nas escolas públicas. Se ainda não é um lugar de perfeição para as suas demandas, já as veredas foram abertas.
Lembrar deles é lembrar das dificuldades e preconceitos ligados a essas e tantas outras deficiências (ou chamadas deficiências) que permeiam nosso cotidiano, dentro de uma realidade que separa seres entre normais e anormais... o quanto estamos perto ou distantes de mudar esse pensamento?
Se formos lá no dicionário procurar o significado da palavra “deficiência”, encontraremos o quê? Vou lá procurar... o senhor Michaelis (e agora eu sem saber se esse Michaelis eu coloco entre aspas ou não, lembrando lá da informação de colega professora de português que fez com que eu parasse de colocar aspas no nome das escolas.... 😄... eita doideira de escrita), na área médica, significa “mau funcionamento ou ausência de funcionamento de um órgão”, de forma geral “ausência de qualidade ou de quantidade; carência, falta, lacuna” ou “falta de algo de que se necessita”. Não gostei desses significados, resolvi consultar meu amigo Aurélio (sempre quem define o significado faz parte do sexo masculino?... nunca tinha me feito essa pergunta), mas Aurélio diz o seguinte: Insuficiência orgânica ou mental; defeito que uma coisa tem ou perda que experimenta na sua quantidade, qualidade ou valor.
Por que não gostei da definição do Michaelis? Porque nela não está colocado de forma explícita justamente aquilo que o senso comum pensa da deficiência, como algo que falta, que veio incompleto, por isso acaba se tornando parte do preconceito que assola e diminui nossa humanidade. Já “Aurélio” (aqui acho que cabe aspas 😁, essas carinha são ótimas) diz que forma mais enfática, assim como o preconceito sempre nos fala, que deficiência é um “defeito que uma coisa tem ou perda que experimenta na sua quantidade, qualidade ou valor”, sendo essa visão o grande problema que aqueles(as), a quem é atribuído o termo deficiência, são obrigados(as) a sofrer.
Mesmo porque, deficiente, quem não o é? Todos(as) nós nos falta algo, ou as vezes sobra o que não deixa de ser deficiente, demais ou de menos, parece sempre aquela nossa busca infinita no equilíbrio, e aquele que é discriminado pela sua “deficiência” sofre mais por tentar se encaixar nesse grupos pré-formados de normais!.
Quando sentei aqui para escrever não sabia como o faria ou o que escreveria, logo de cara lembrei de Nietzsche que diz algo em torno de... “o pensamento não vem quando eu quero, mas quando ele quer”, dando aí sua independência ao pensamento como se estivesse fora de nós... será que está? Sei não, mas sei que mostrar que nosso pensamento o tempo todo tem interferências de tantos outros, que quando pensamos ele vai e volta no foco (ou não), que muitas vezes temos que deixar correr solto e que essa busca do normal é de todos(as), me faz agradecer a todo(a) aquele(a) que em seu cotidiano nos incita a olhar para nós, e aí estão os chamados “deficientes” nessa luta, “as vezes ganhando, as vezes perdendo” mas, aprendendo a lutar... e aqui termino com um trecho da crônica “Os diferentes” de Artur da Távola, retirada do livro “Mevitevendo”, pgs 150-151 (deixando tudo explicadinho para evitar alguém dizer que estou plagiando!)... kakakak, não resisti ao akakak!
“ Diferente não é quem pretenda ser. Este é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente. Diferente é quem foi dotado de alguns mais e alguns menos em hora, momento e lugar errado. Para os outros. Que riem de inveja de não serem assim. E de medo de não aguentarem, caso um dia venham a ser. O diferente é sempre um ser mais próximo da perfeição... Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficiente forte para suportá-lo depois”,



Comentários

  1. seus textos, Profa Cecília, nos levam à reflexão! Muito obrigado!

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  2. Parabéns e obrigada por compartilhar conosco mais essa reflexão em forma de ótimo texto!

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    1. Grata, sempre carinhosa e colaborando com minha melhora pessoal.

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  3. Gostei, o texto é leve e ao mesmo tempo profundo, abordando o tema dos diferentes (gostei do termo , me parece mais adequado que deficiente, comumente usado).

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